Ronaldo Boschi
Ronaldo Boschi

A ESTRANHA CADEIRA DE BALANÇO

Balançava sozinha. Era uma cadeira de balanço daquelas antigas, em madeira de lei, sem pregos. Toda de encaixe. O assento e o encosto eram de palhinha. Os adereços da cadeira eram em veludo vermelho. Uma almofada linda.
    Tudo começou quando o novo empregado da casa pediu demissão. Procurou o proprietário, o Sr. Agenor, e comunicou-lhe, em tom quase confessional, que não ia continuar a morar na casa, e estava dispensando o trabalho.
    O Sr. Agenor ficou atônito. Não é assim de um dia para o outro que se troca um caseiro, um empregado. Gasta-se um tempo. É necessário buscar. Não é assim...
    Joel, o empregado foi peremptório.
- Não fico mais nem um dia!
- Mas o que foi que aconteceu? Você parecia tão satisfeito aqui!
- Estava realmente! Lidar com gente é fácil...
- Então?
- ...Com fantasma é diferente!
- Não estou entendendo!?
- A cadeira Sr. Agenor...
    Em suma, Joel despedia-se da casa por ter testemunhado que a cadeira balançava sozinha. Era alheio aos maus espíritos. Temia!
    Lá se foi Joel. Ficaram o Sr. Agenor e sua cadeira.
    - Bobagem! Crendice!
    E o tempo passando. O Sr. Agenor foi ficando mais atento em sua cadeira de balanço. Para a família não disse o motivo do abandono de Joel. E tinha as crianças, não queria impressioná-las com maus exemplos.
    Passou a usar a cadeira para suas sestas. Após o almoço, diariamente, passou a usar sua cadeira de balanço. Vinte minutos de repouso. Muito agradável. Tudo muito natural, até que um dia... percebeu que a cadeira o ninava, balançando-se por si mesma, suavemente, sem que nenhum esforço de sua parte a fizesse agir.
    - Êpa!!! – E levantou-se apressado!
    Foi a conta de a cadeira ampliar sistematicamente o seu ritmo, provocando os ruídos naturais de uma cadeira de balanço que balança, e, pasme-se, começar a sair do chão, como se não tivesse peso. Boiava no ar, para lá e para cá, em doce e suave balanço, apesar dos pequenos ruídos.
    O Sr. Agenor, pasmo, olhava aquilo sem acreditar.
    A cadeira foi alçando o ar, suavemente, subindo, subindo, lentamente, até alcançar a altura da larga janela com cortinas de voil. O vento suave fez deslizar janela afora a cadeira de balanço, vazia que, flutuando sai – magicamente - da sala e ganha o espaço, assim como um balão que foi-se diminuindo no ar...diminuindo...até sumir no horizonte.
    Era de se ver a cara do Sr. Agenor!
    Crendice?

 

DISTRAÇÃO

Era um homem distraído. Extremamente distraído. Tinha-se a impressão que era desligado da realidade. Era tão desatento que ao caminhar para casa, passava além. Se estava de ônibus, passava do ponto. Se estava ao volante, avançava o sinal. Se estava sob observação, esquecia. Em suma, nada o fazia concentrar-se.
    Aliás, concentração era uma atitude que nossa personagem nunca pode imaginar. A desconcentração sim, era seu lugar comum. Era tão distraído que foi capaz de faltar à festa de seu aniversário. Confundiu o dia. Todos foram, menos ele.
    No dia da prova final do curso de Letras, prova final de literatura brasileira, prova para a qual dependia de quarenta pontos, nossa personagem simplesmente se esqueceu. Não compareceu. Nota: zero. Segunda chamada, que aliás, também não foi feita. Nossa personagem atrasou-se. Nota: zero. Repetiu o semestre.
    A distração era tanta que no preenchimento de uma ficha de inscrição para o concurso de literatura da Academia Brasileira de Letras, colocou o nome do pai no lugar do seu. Foi desclassificado a priori.
    Numa fila de banco, depois de tanto esperar até conseguir chegar no caixa, percebia que tinha deixado em casa o dinheiro que fora depositar.
    Esquecer para ele era praxe. Em verdade não era esquecimento, era distração. Não se lembrava, porque distraía. Donde podemos concluir, a partir desta personagem que quem esquece, não esquece. Distrai-se. A distração é a responsável pelo esquecimento. Ou melhor dizendo: Não existem pessoas esquecidas. São distraídas, concorda?
    Espero que você concorde comigo, caro leitor, pois esta nossa personagem é um exemplo único e definitivo desta premissa que acabo de afirmar. Distração e esquecimento são frutos de uma mesma ação: ausência! Explico: Quem esquece, não faz. Quem distrai, não faz. Quem não faz, ausenta-se da ação. Confere? Concorda comigo agora, caro leitor?
    Pois nossa personagem era assim. Soava a desatenção. Desatenção remete-nos a Chico Buarque de Holanda lembra? “...que qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´àgua.” E  era. Todas as vezes que nossa personagem se distraía, ela cometia uma invasão, ou prejudicava-se ou prejudicava a alguém. A distração provoca a quebra dos compromissos. E era uma constante nele. Sempre distraído, ou, dizendo de outra forma: sempre ausente, ou sempre fora de hora, ou...e os exemplos não acabariam nunca.
    A família já tinha desistido dele. Ao invés de reconhecerem nele a sua dificuldade de concentrar-se, cobravam-lhe como se sua distração fosse uma ação propositada. Pois era justamente ao contrário. Nossa personagem também sofria com isto.
    Certo dia, contrariada pela família, esgotadas todas suas possibilidades de reaver a confiança dos parentes, nossa personagem resolveu assumir uma postura definitiva, que não lhe causasse problemas. Percebeu que era nos compromissos de horários assumidos que mais se perdia. Achou que seria apenas não ter mais horários, assim estaria sempre a tempo. Assim o pensou, assim o fez. Do dia seguinte em diante, não aceitou marcar nenhum compromisso. Abandonou todas as atividades que tinham horário definido. Tornou-se um homem sem horário, sem cobranças, sem compromissos,...sem lenços e sem documentos, como diz Caetano Veloso.
    Hoje vive feliz. Achou uma maneira exemplar de não ter que justificar sua distração. A família agora não lhe cobra mais nada. Todos estão unidos num só pensamento com relação à nossa personagem. Todos têm agora uma só expressão para classificar nossa personagem: irresponsável.
    Por incrível que pareça, para a nossa personagem, ser irresponsável – que ele sabe não ser – é suportável. Distraído – que ele sabe ser – é insuportável.
 

A REVANCHE DO GPS

seu GPS. Seus familiares nem imaginavam a que serviria aquilo, com aquele nome estranho. Mas ele comprou e instalou no carro. Aliás - diga-se de passagem – ele era louco com carros. Ter carro era mais importante para ele que tudo.
    O GPS funcionava legal. A cada esquina dizia o que lhe é peculiar. Dobre à direita. Mantenha-se à esquerda, etc, etc... E ele, feliz da vida – a principio - dobrava à direita, mesmo sabendo que aquele não era o melhor caminho; mantinha-se à esquerda, mesmo sabendo que, ali adiante, iria desobedecer.
    A princípio atendia.
    Com o passar do tempo, desobedecia.
    A partir do terceiro mês, começou a brigar seriamente com o seu GPS. Não é possível errar tanto. Fazer-me dar tantas voltas, pensava. Me meter em lugares de acessos tão difíceis. Conduzir-me a ruas em reforma.
    Em suma: o GPS do Boy era um desastre. Mais atrapalhava que ajudava.
    Mas os dias são consecutivos. A vida só anda para a frente. E lá estão, juntos, o Boy e o GPS, convivendo diariamente. Abrir mão do GPS, nem pensar. Todo mundo tem. É moda. Imagina!!!
    Mas a indiferença do GPS também era contínua. Todos os dias se comportava apenas como programado.
    E a teimosia do boy, cada vez mais apaixonado por carros, só ampliava. Ouvia o GPS para desatender. Desobedecia.
    Vai que um dia, já bastante convividos - Boy e GPS - aparece o ódio. Veio chegando devagar, devagarzinho e, com o tempo, assentando-se no coração do Boy.
    Não era apenas o ódio. Era mais. Era aquele inimigo carrancudo que não hesita em repetir, repetir e repetir as mesmas coisas, uma vida inteira em sua cabeça, como um velho daqueles que bebem muito, depois do último porre. Repete! Sempre a mesma coisa!
    É claro que o Boy de nossa estória não tinha a menor noção de sua prepotência. Era capaz de desafiar os deuses sem nem imaginar que o fazia. Aquelas lições clássicas dos modelos Gregos, de Odisseu, nem lhe passavam pela cabeça. Importava-lhe sua imagem diante dos colegas, seu carro novo, completo, com GPS.
    Desafiar Deuses não preocuparia nossa personagem, mas, desafiar GPS, isso era mole para ele. Ainda mais nesta situação finalista de cansaço e esgotamento. Não iria mais admitir nenhum palpite infeliz. E não admitiu:
    Naquela noite, ele e ela – a  namoradinha – estavam a 120 pelo alto da Afonso Pena. O GPS comandando.  A moça, distraída no Celular. Aí, toca o dele. Ele atende. E O GPS: à direita. Ele foi. Distraído. Falava no celular. E o GPS – à direita! E ele foi, a 120...aliás, foram: o Boy, a namoradinha, o carro e o GPS: foram todos para o fundo do barranco, depois daquele vôo espetacular, pós-moderno e inconseqüente. Foi o último vôo deles.
 

A ÁRVORE QUE COMIA FOLHAS

    Sucção. Funcionava para dentro de si mesma. Quanto mais crescia, mais era notada no alto do morro, esparramada, puros galhos. Vazios. As folhas vinham, rápidas. Parece que sabiam que teriam pouco tempo. À medida que brotavam já se consumiam pelo tronco adentro. Era como se seu broto fosse a própria boca da árvore, naquele lugar, vigiando.
    O desavisado poderia pensar que aquela era uma árvore careca, dessas que, na seca, ou em pleno outono, deixam cair suas folhas e se mostram na nudez dos troncos. São, às vezes, árvores assustadoras, dessas que são usadas nos desenhos animados, cujos galhos parecem mãos de bruxas e que sempre me impressionaram muito quando, criança ainda, conheci aquele desenho fantástico do Walt Disney - Branca de Neve. Lembro do filme, naquela cena onde a pobrezinha é puxada pelos galhos da floresta, cheia daquelas árvores negras cujos galhos mais pareciam garras de aves de rapina. Coisas da infância.
    Mas a árvore de nossa história era diferente, bem diferente do já conhecido. Era uma árvore sui-generis dessas que, de longe apenas parecem definhadas por estarem sem suas folhas que, bem sabemos, é a vestimenta das árvores.
    Ora, uma árvore sem folhas, no alto de um cume, faz figura. Marca presença. E nossa amiga, a referida árvore fazia. Excelente figura. À noite - naquelas noites de lua cheia das quais Catullo da Paixão Cearense faz alarde naquela musica do Luar do Sertão - pois é...à  noite é que percebemos a dimensão de nossa árvore que, por seus quase cem anos, predomina no alto do morro. Aquele tronco enorme. Aquele tanto de galhos esparramados em todas as direções do céu, e aquele céu negro com uma lua prateada, deixando transparecer a silhueta negra daquela árvore gigante.
    Aposto que você também, ao ver nossa árvore no alto daquele morro deveria ser mais um desses que pensam que é apenas uma árvore sem folhas, em estação do dia. Mas não. Juro, caro leitor. Posso jurar sobre qualquer condição, pois eu tenho certeza que as folhas nascem. Nascem e são deglutidas. Acredite se quiser!
    Já perdi muitos amigos que duvidaram, permanentemente, da possibilidade de ser uma árvore que come as próprias folhas. Minha insistência nunca lhes agradou. Mas continuo insistindo, mesmo correndo o risco de perder você, que agora me lê. Mas, se você tivesse tido a vivência que tenho destas plagas, desta vista e desta casa onde moro, pelo menos teria mais complacência para ouvir-me. Eu não insisto por nenhum outro interesse que o de ser acreditado. Acho que mereço este respeito de quem me ouve. Se alguém se desse ao trabalho de subir ao cume e postar-se diante da árvore por um ou dois dias, na primavera, com certeza iria perceber o que digo. Mas quem? Quem toparia uma vigília dessas?
    Eu sim, o percebi. Não que me postasse permanentemente naquele lugar, mas era meu cantinho de fuga na minha infância. Era para lá que eu corria todos os dias. Só assim pude perceber que as folhas que começavam a nascer, hoje, nunca estavam lá no amanhã. E eu ia, hoje e amanhã, quero dizer, todos os dias. Explica! Folhas que nascem numa árvore que não tem folhas?
    Tenho evitado comentar com estranhos estes acontecimentos, como diria Drummond: “em minhas retinas tão fatigadas”, assim como não me esquecerei que no fim do caminho tem uma pedra. Todas as vezes que tento ir por ai, arranjo mais um inimigo. Não! Em boca fechada não entra mosquito. Vivendo e aprendendo. Passarinho que come pedra....
    No entanto, uma coisa é certa: aquela árvore do cimo do morro, este morro que avisto aqui da minha casa, come folhas! Ora, uma árvore que come folhas não pode ser uma árvore normal. Terei convivido por toda minha vida com uma árvore assassina?
 

A VIZINHA FOGUETE

Quando eu mudei para minha casa nova, em Lagoa Santa, minha vizinha já morava lá, há anos. Aliás, tenho a impressão de que ela foi a primeira residente deste bairro aqui, no alto do Joá.
Há muito eu ouvia pipocarem foguetes neste bairro, sem ter noção da razão dos fogos. Mais tarde soube que ela os soltava para espantar os pombos que lhe invadiam o quintal.
Minha vizinha usava tanto deste artifício das bombas que chegou a ganhar um abaixo assinado, que veio endossado por todos os outros vizinhos do bairro, proibindo foguetes. Daí para cá, e já tem mais de ano, impera o silêncio. Mas a invasão dos pombos continua.
    Minha vizinha é pessoa sui-generis. Contam que ela não veio morar em Lagoa Santa por acaso. Não! E este é o seu segredo. Quando ela morava em Belo Horizonte, já tinha o hábito dos foguetes. Lá não havia pombos. Era uma necessidade inexplicável dos foguetes. Dizia que o estourar das bombas quebravam a monotonia local. E é verdade. Sempre que há um estouro de foguete as pessoas reagem, comentam, reclamam, não importa, mas todos participam, ou para o bem ou para o mal, mas participam.
    Quando fizeram o abaixo assinado contra nossa vizinha ela ficou muito zangada. Sob pena de ser multada pela prefeitura, minha vizinha não pode mais se manifestar através de suas bombas. Mas há momentos em que, para ela, fica impossível passar sem os foguetes. Um bom exemplo é na noite de réveillon, na virada de ano. Todos bombardeiam, menos ela. Desde o ano atrasado, que foi quando saiu a sentença, minha vizinha tem solicitado meu quintal para soltar seus fogos de artifício. Ela compra daquelas caixas enormes, já programadas, para as quais se faz necessário apenas acender um pavio, e tem-se fogos por dez minutos, seqüenciais.
    Neste último ano, foi maravilhoso. Fogos de todos os sons, e de todas as cores. O céu se coloria e explodia numa sensação de festa e alegria. É incrível a felicidade de minha vizinha ao ouvir e ver pipocarem seus fogaréis, mesmo tendo que fingir que são do seu vizinho.
    Mas o mais importante da estória de minha vizinha e de seu traslado para Lagoa Santa é um história que parece falsa e, por isso mesmo, pouco tratada. É como se fosse um assunto politicamente incorreto.
    Como eu contava, minha vizinha foi das primeiras moradoras deste bairro, aqui no alto do Joá. Sempre fogueteira, até que a fizeram parar. É ai que entra a necessidade de contar a história de como minha vizinha veio ter com os costados nesta, à época, longínqua Lagoa Santa.
Dizem as más línguas que ainda em Belo Horizonte, numa noite em que ela soltava uns foguetes como de praxe, que este foguete, não funcionou como os outros. Ela o acendeu e, no momento em que ele deveria estourar, para cima, ele, o foguete, deu foi um arranco que assustou minha vizinha e que, no ímpeto da explosão, arrastou nossa vizinha ares acima e a fez deslocar pelo azul do céu. Os que a assistiam viram-na apenas sair subindo céu acima e deslocando-se como uma pequenina nuvem dançando no ar, e riscando o céu. Fez lembrar Mary Poppins com sua sombrinha sobrevoando Londres.
Pois não foi que nossa vizinha foi levada pelos ares, agarrada no foguete, até aquele lugar que ela, sem o saber, iria descobrir entre pequizeiros: o alto do Joá. Foi aqui que o foguete a deixou e, acredite se quiser, é por isso que ela mora, até hoje, neste lugar. Se duvida do que conto, passe aqui, verifique com seus próprios olhos.
 

SUOR

    Soraya suava demais. Além do normal. Desde criança. Nunca soube a origem disto. Pequenina, indo para a Escola, lembra-se de quando dava a mão a D. Auxiliadora, vizinha da família, que a levava e buscava diariamente ao Jardim de Infância, o Delfim Moreira, da Rua Espírito Santo. D. Auxiliadora usava um lencinho branco que era colocado entre as duas mãos, a dela e a de Soraya. Gentilmente dizia que era para prevenir a suadeira, mas, em verdade, era para enxugar. E naquela época Soraya tinha apenas seis aninhos. Nem alfabetizada estava.
    Na adolescência foi pior porque não havia roupa que não aparecesse molhada, sobretudo debaixo do braço, nos sovacos. Isto sempre foi o horror de Soraya. Mas suava. Quanto mais banho tomasse, mais água seu corpo descartava.
    Nas aulas de ballet clássico, numa simples pirueta ou pequeno tour, espargia água nos colegas. Tanto que, em sala de aula, era sempre a última e destacava-se do grupo. Tinha esta liberalidade da maitre de danse. Soraya era tida como excelente aluna. Teria sido uma grande bailarina. Tinha um en dehors maravilhoso, era graciosa nos saltos, leve, ágil. Tinha uma abertura incrível. Seus arabesques eram fantásticos e seus cambrées inacreditáveis. Nos pas-de-deux é que veio a ter o problema maior. Inibia-se por seu suor. Sempre que dava as mãos ao partner, ou pela coreografia ou por algum suporte en l´air, Soraya sentia o coração bater mais forte. Não pela dificuldade da dança, mas por saber que incomodava. Tinha vergonha! Abandonou a dança.
    Na Escola convencional Soraya fez o curso, de Letras na Pucminas. Excelente aluna. Soraya sempre amou ler e o curso atendia muito ao seu sonho: Professora de Literatura. Depois de formada Soraya não chegou a lecionar. Apesar do convite da Coordenação do Curso que via nela talento nato, Soraya não pode aceitar. Suava demais!
    Soraya não se casou. Namorados teve, muitos, mas todos por pouco tempo. Suava demais!
    Quando se viu “titia” e percebeu que seu tempo de ter conquistado um marido estava vencido, começou a dedicar-se aos sobrinhos: Carlinhos e Heliane. Foi bom enquanto durou. Mas chegou o dia em que as crianças repararam:
    -“Nossa Tia! Credo! Você sua demais!”
    Foi ai o inicio da depressão final. Soraya ainda era muito nova: cinqüenta e dois!
    Cinquenta e três, cinqüenta e quatro... e chegou a hora de Soraya.
    Muito nova! Morreu com apenas cinqüenta e quatro anos. A causa mortis foi depressão.
    O velório aconteceu, mas com caixão fechado, o que causou muito estranhamento nos presentes, sobretudo nos parentes mais próximos. O segredo de Soraya teria sido enterrado em fechado caso os sobrinhos Carlinhos e Heliane, agora adultos, não se sentissem na obrigação de justificar para todos: em verdade Soraya não morreu. Derreteu! Escorreu!
 

O IMPRESSOR

era muito infeliz. Ela, a esposa dele, não parava de falar. Uma matraca. Disparada. Dia e noite. Um inferno!
    No tempo de namoro ele achava natural. Percebia como um entusiasmo por estar junto do namoradinho. Achava ingênuo. Bonitinho. Até gostava.
    Recém casados, também soava natural. Ele passava o dia na tipografia. Era bastante plausível aquela falação da esposa. Tinha ficado o dia inteiro sozinha. Ele via como uma demonstração amorosa. Até gostava.
    No entanto, com o passar do tempo, ele – Anselmo Duarte – passou a se cansar. Se folheasse um jornal, não conseguia concentrar-se. Ela – Eliana – estava ali, ao lado, firme...falando. Se ligasse a televisão para ver um jogo, Ela estava ali, ao lado, firme...falando. Se tentasse ver o jornal falado da televisão, Ela...
    Foi indo cansou. Tentou fazer com que ela o percebesse, na maior finesse. Não conseguiu.
    Tocou diretamente no assunto, com muito carinho e educação. Não conseguiu.
    Foi explícito! Não conseguiu.
    Começou a vir mais tarde para casa. Fechava a tipografia, passava no bar da esquina. Jogava conversa fora com alguns amigos. Tomava uma cervejinha. Sentava-se à mesa do passeio e ficava a ver correr o transito a sua volta. Observava os transeuntes. Ganhava um tempo. Ai então rumava para casa.
    Não adiantou. A “falação de papagaio” ocupava o resto da noite. Daquele momento em que punha os pés em casa até o momento em que Eliana, exausta do próprio falatório, desmaiava, exaurida de tanto falar.
    Anselmo Duarte estava em seu limite máximo. Ou Eliana se calava ou...
    Pois foi o que fez. Decidiu-se! Não passaria de amanhã.
    Na manhã seguinte Anselmo fingiu que não ouvia. Tomou seu café, pegou seu carro e se mandou para a tipografia. Mal chegou, ligou para Eliana, em casa.
    - “Venha imediatamente aqui. Preciso de você, urgente.” E desligou.
    Eliana espavoriu. Nunca tinha acontecido antes. Alguma coisa muito séria seria. Tomou seu café, pegou seu carro e se mandou também para a tipografia.
    Anselmo tinha acabado de preparar tudo.
    Eliana chegou! Estacionou. Desceu do carro. Adentrou a Tipografia. Foi engolida! A impressora inspirou fundo e - antes que Eliana iniciasse seu falatório – a engoliu tragicamente. Sobrepassou-a. Passou por cima dela. Espremeu Eliana, ou melhor: imprimiu Eliana. Ela achatou-se como uma folha de papel. Foi impressa, compreende?
    Hoje Eliana é uma página de livro. Impressa. Não fala mais. Mas pode ser lida.
 

ALQUIMIA

Dizem que o ouro é o metal dos Deuses e que são de ouro os objetos mais reverenciados. Lê-se até que os alquimistas - mais que o ouro que pudessem obter a partir de materiais menos nobres – pretendiam realmente era o lugar da divindade.
    Alquimia em si é um assunto vasto, que tem história e é apaixonante. Mas não é este o tema que se pretende neste conto, caro leitor. Apesar de tanto enredo vinculado à alquimia, o que se pretende mesmo aqui é narrar um caso, verídico, do qual este autor foi testemunho. A alquimização de uma mulher. Acredite se quiser!
    Walquíria é a mulher. O marido chamava-se José Bonifácio de Almeida. Walquíria, desde que dera por encerrado seu casamento com José, não assinava mais Almeida. Usava somente seu nome de solteira – Walquiria Borges. O casamento estava encerrado, mas continuavam morando juntos, se tolerando. Para toda a família eram o casal exemplo. Os dois se comportavam em público com um hipócrita e fingido carinho. Esmeravam-se na fala e, sobretudo na postura. José e Walquíria eram o “casal perfeito” para todos, exceto para si mesmos.
    Escravos que se permitiram tornar nesta imagem de “casal feliz”, José e Walquíria passaram a ter, por isso mesmo, uma relação diferenciada. Aprenderam a se respeitar, já que não se amavam. Respeito era bom e ambos gostavam. Com isto, passaram a ter uma relação inesperada, mesmo para si.  Chegaram a aparentar tanto carinho que ficou impossível a terceiros perceberem a verdade. E isto convinha, cada vez mais, a José e Walquíria.
    Mas, como dizia Abrão Lincoln: Pode-se enganar algumas pessoas todo o tempo; pode-se enganar todas as pessoas algum tempo; mas não se pode enganar todas as pessoas todo o tempo!
    E foi assim que aconteceu com nosso casal “feliz”. Foram descobertos. A família enxerga com olhos muito maiores. A família percebe. A família descobre.
    Flagrados em desamor, José e Walquíria resolveram não perder a linha. Manter a farsa de amor eterno. Achavam que poderiam continuar enganando e contradizendo aos maledicentes. Se assim pensaram, assim fizeram.
    O amor faz loucuras. José e Walquíria, desde que começaram a fingir amor, começaram a acreditar nisso. Com isso, caro leitor, percebemos nascer um amor verdadeiro para encobrir o desamor do passado.
    As atenções redobravam. José vivia para proteger seu amor por Walquíria,e, Walquíria vivia para proteger seu amor por José. É aqui, caro leitor que entra a alquimia, assunto abandonado lá no início do conto, lembra? Pois foi assim:
    José e Walquíria combinaram não se entregarem aos maledicentes. Haveriam de comprovar o contrário. Transformariam, alquimicamente, seu desamor em amor e mais...E isto é o inesperado: combinaram entre si que, ao morrer um dos dois, o outro transformaria seu corpo numa escultura.
    Walquíria desencantou primeiro. José fez com que seu corpo fosse esculpido em ouro puro e dizia para todos que aquela Walquíria era a original, alquimatizada.  Acredite se quiser!

Desencantou também nosso dileto amigo, o grande dramaturgo mineiro Ronaldo Boschi. Ator, diretor, ilustrador, professor universitário e de teatro entre tantas outras facetas. Poucos dias antes de sucumbir a um câncer no pulmão, Ronaldo nos chamou em sua casa e nos pediu que publicássemos 24 contos denominados “Contos Absurdos”. Disse-me que achava nosso jornal deveras literário. O atendemos e Ronaldo pôde ver publicado quatro deles. Publicaremos os vinte restantes e esperamos que os leia onde estiver.

 

A REVOLTA DO ARMÁRIO

    Ele, o dono do armário, não tinha limites. Desde que montara o armário para roupas que perdera a conta das novidades. Ternos, camisas, calças, meias, gravatas, cuecas, lenços, chapéus, coletes, blusas de frio, e tudo o mais que se fizesse necessário, cabia, e continuaria cabendo naquele armário.
    Como toda gente, ele, o proprietário do armário, achava que armário é só armário, desses que existem em todas as casas, mortos, calados, esquecidos. No entanto – isso ele não podia imaginar – o seu armário existia. Não existir, como os outros citados. Aquilo é existir, porque citado, mas não têm vida. Existir aqui, para o armário desse dono, era ser. O armário dele era diferente. Existia de verdade, como gente. É, de verdade mesmo, assim como gente: existir. Se nos remetemos a Descartes vamos nos lembrar de sua máxima: Penso, logo existo. Não! O armário daquele dono existia, mas não pensava, não, isto seria exagero dizer e poderia fazer você, meu caro leitor, duvidar de mim. Mas o armário deste proprietário existia, apesar de não pensar. E pior, não pensava, mas sentia revolta. É! Com o tempo de uso, com o passar do dia a dia, com o advir de mais e mais coisas para seu bojo, foi-se revoltando. Foi com o tempo. Devagar. Hoje, mais um par e sapatos. Amanhã, mais uma caixinha de lenços, depois de amanhã, mais uma camisa nova, e daí por diante, um crescer de volume que foi criando raízes, ou melhor: revolta.
    Não sei se o leitor é capaz de imaginar uma revolta de armário. Mesmo para mim, ao tentar escrever este texto, isto soava estranho. Armário que sente, que tem ação humana, já me fazia duvidar da idéia. Mas muitas vezes a realidade supera a ficção. Este é o fato com relação a este armário deste proprietário que estou contando para vocês. Tentei não me envolver com este enredo. Tanto é verdade que vocês devem ter percebido que nem sei o nome do proprietário, mas isto não me redimiu de ter que escrever esta história. Era tão incomum que, se eu deixo passar e não tento escrevê-la, podia esquecer. Se esqueço, quem se lembraria do fato depois? Pois é! Escritores têm este tipo de responsabilidade. Ou informam seus leitores ou deixam de escrever. Deixar de escrever, a meu ver, é crime. Escritor tem obrigação!
    Mas houve um dia em que nosso armário se viu pleno. Pleno no sentido de completamente lotado. Caberia uma plaquinha: Não há vaga! Mas armário não é alfabetizado. Armário não escreve, armário não age...bem, em nosso caso este armário era uma exceção, como se verá mais adiante.
    O fato é que o proprietário deste armário chegou nesta noite, cansado, depois de um dia de trabalho e de um passeio para compras no shopping noite adentro, com um terno novo. Terno chic, destes pretos, risca de giz, com colete e paletó. Junto, embrulhos menores, com camisa, gravata, meia...puxa: um enxoval completo. Muita coisa! Enquanto embrulhos, lá fora, tudo bem, mas...
    E não deu outra. Tão logo os embrulhos iam-se abrindo, novos cabides eram requisitados e novos espaços eram ocupados, ou melhor, apertados entre outros espaços já apertados. Não cabia mais nada.
    Nosso armário não sabia o que pensar. Mas nem pensava mesmo.
Nosso armário não sabia o que sentia...mas sentia...náusea, vômito. Satisfação plena que beirava o vômito.
    É verdade que não houve testemunha outra senão a voz do próprio proprietário para narrar o fato acontecido. Salvou-lhe a vida o telefone celular pois, mesmo soterrado dentre as roupas que lhe foram vomitadas em cima, uma pilha enorme, com todas as roupas do armário, mesmo assim, soterrado, foi capaz de tomar o celular e apertar o 190 salvador. A polícia o desenterrou de entre as roupas. No laudo policial foi inevitável um culpado: O armário!
 

A ÓBVIA

Ela era óbvia demais. Tudo que fazia, ou pretendesse fazer, era previsível. Tinha nascido para o lugar comum. Nunca conseguiu ser mais que isso: óbvia.
    Quando criança, na escola, sua obviedade era tamanha que chegava a ponto das professoras terem que pedir silêncio a Emilinha. Era como se fosse uma criança sem desconfiômetro. Achava que as coisas lógicas eram produto de sua inteligência. Não percebia que tudo o que falava ou repetia, era déjà-vu. Não tinha noção.
    Os lugares comuns, essas máximas do povo, estas falas vazias que não dizem nada de novo a ninguém porque já são do conhecimento de todos, são ditas por Emília - hoje adulta e já com mais de 80 anos - como se fossem grandes achados. A família já desistiu dela. Os filhos cansaram. Vivem o mais longe possível. Os netos tomam a benção de longe. O marido, o pobre coitado, tem convivido a vida inteira com isso, mas agora, com 85 anos, quase não escuta e, assim sendo, pouca diferença faz.
    Ao dizermos que D. Emilia é óbvia demais, parece-nos, caro leitor, estarmos de certa forma desprezando toda e qualquer idéia que nossa personagem possa ter tido pela vida afora. Mas posso garantir, acredite, não teve. Tudo que Emília foi capaz de dizer e de fazer, não foi criação pessoal. Criatividade aliás, é a única qualidade que nem deveria ser mencionada neste conto, já que em se tratando de Emília, o máximo é a repetição.
    Quem tem alguma leitura dos clássicos e algum dia já folheou algum texto da Poética de Aristóteles, com certeza pode estar achando que Emilia não foge então ao lugar comum, o lugar da massa, do coro clássico, o qual Aristóteles trata muito bem. É verdade. A massa, o povo, só é povo porque é mimético, quero dizer: repete. É verdade. A massa é assim mesmo, e nossa personagem também o é. Mas com Emília, caro leitor, é mais ainda porque ela além de ser mimética – quero dizer: ficar repetindo as coisas – ela é óbvia, ou seja: insiste em frisar que está repetindo, percebe?
    É angustiante.
    Chega a dar arrepios saber que, após qualquer fato ou ação acontecida diante de Emília, ela vai dar a sua “máxima”: uma obviedade sobre o mesmo assunto.
    Chega a lembrar a gente do exercício do jazz: variações sobre o mesmo tema. Só que no jazz, é para provocar no músico executante o improviso, a criação, a atitude criativa diante daquele tema. Agora, em Emília: é teimosia! É apenas repetição. Tipo assim:
    Alguém: - Está uma linda tarde!
    Emília: - É! Está uma linda tarde!
    E ponto final!
    Caro leitor, nem sei pra que te conto isto. Desculpe-me! Perdoe-me! Eu precisava desabafar!
    Eu sou o marido!